terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

THE EDEN OF TYRANNY

"Where the many are, there is security; what the many believe must of course be true; what the many want must be worth striving for, and necessary, and therefore good. In the clamor of the many there lies the power to snatch wish-fulfilments by force; sweetest of all, however, is that gentle and painless slipping back into the kingdom of childhood , into the paradise of parental care, into happy-go-luckiness and irresponsibility. All the thinking and looking after are done from the top; to all questions there is an answer; and for all needs the necessary provision is made. The infantile dream state of the mass man is so unrealistic that he never thinks to ask who is paying for this paradise. The balancing of accounts is left for a higher political or social authority, which welcomes the task, for its power is thereby increased; and the more power it has, the weaker and more helpless the individual becomes.
Wherever social conditions of this type develop on a large scale the road of tyranny lies open and the freedom of the individual turns into spiritual and physical slavery."

C. G. Jung, The Undiscovered Self, 1957, in: C. G. Jung, The Undiscovered Self, Penguin Books, 2006, pp. 58-9

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

FÉ, RAZÃO E ATEÍSMO


Parece-me que existem graves equívocos nos tempos que correm a propósito das noções de 'Fé', “Razão” e “Ateísmo”. É preciso notar que mesmo o conceito de 'religião' tal como o conhecemos hoje em dia é algo bastante recente: até os pensadores iluministas começarem a questionar a ideia de Deus e o fenómeno da religião a noção de separar a experiência religiosa das outras componentes da vida não se colocava: viver implicava um exercício, acima de tudo, de fé; ou seja, de operacionalização das crenças de cada um, normalmente partilhadas, sobre o mundo. Naturalmente, dessa crença fazia parte no Ocidente a noção de um Deus criador, um fiel numa balança eterna sobre o Bem o Mal e que, após a morte física de cada um, seria o julgador supremo capaz de garantir benesses ou castigos às almas imortais que configuravam a essência do ser humano.
Com o advento da modernidade, em particular a partir de Descartes e a sua busca pela pedra de indiscutível certeza sobre a qual se poderia erigir o exercício de conhecimento “científico” do mundo, o célebre “penso, logo existo”, separam-se as águas: de um lado, temos aqueles que entendem que a descoberta do mundo e de Deus, consequentemente da essência humana e do sentido para a vida, passa pela análise fria, mecânica e causal da razão; do outro, aqueles que entendem que a razão pode explicar as particularidades mecânicas do mundo mas que o significado, os porquês de as coisas serem como são, para sempre seriam o terreno de uma explicação que a razão humana não poderia alcançar.
No entanto, para se chegar a esta divisão, a religião teve um papel fundamental: onde o monoteísmo tinha separado o mundo mágico do homem pré-histórico em divino e material, o Cristianismo, com o nascimento de Deus feito matéria e homem, veio oferecer valor ao mundo: como poderíamos não valorizar o mundo material, as coisas, se Deus, Ele próprio, se tinha feito matéria também através de Jesus? A vantagem competitiva que esta ideia veio trazer aos europeus vai afirmando-se ao longo dos mil anos que vão desde os estertores finais do Império Romano até ao advento do Renascimento: onde no final do Helenismo se voltavam os olhos para o divino já esotérico, ou onde os bons cristãos apenas olhavam para a cidade de Deus, a pouco e pouco o valor do mundo e o interesse em compreendê-lo foi fazendo o seu caminho: a Razão explicava os 'comos', a Fé explicava os 'porquês'. São Tomás, por exemplo, o pináculo do pensamento filosófico Cristão, dedicou a vida a harmonizar Deus e Razão, a Palavra e o Filósofo (no caso Aristóteles).
Com a revolução tecnológica (e moral) do século XV que resultou em grandes cismas intelectuais e uma enorme mortandade na Europa por força de conflitos religiosos (não exclusivamente mas assim justificados) os filósofos, cientistas e pensadores do Iluminismo procuraram, naturalmente, explicar e compreender o fenómeno religioso. O facto de a Razão oferecer um conjunto enorme de explicações sobre a Fé e a Religião, e a Fé, ou os seus fieis servidores e intérpretes, não oferecerem nenhuma explicação que fosse para lá do dogma tradicional fez com que, no debate de uma com a outra, a segunda fosse gradualmente perdendo terreno para a primeira. A pouco e pouco instala-se a ideia de que a experiência religiosa está separada da experiência do mundo. Que a religião deve ser limitada pela Razão. Ou que a ideia de Deus e do religioso é, em si mesma, absurda.
Primeiro, com a Religião Natural do Iluminismo que mais não era do que assumir o antigo Dogma de que o Divino e o Racional eram uma e a mesma coisa, apenas que agora despido do palavreado religioso e assente numa suposta certeza científica: para compreender-se o sentido da vida e chegar a Deus, o criador do mundo, já não era necessária a Fé, bastava descobrir os segredos do mundo através da ciência. Não foi difícil a esta noção triunfar no Ocidente Cristão: afinal, para o pensamento Cristão, o que era racional era bom e configurava uma expressão de Deus. Do mesmo modo, não foi difícil conciliar com as bases clássicas do Ocidente: afinal, já para Platão o Bom e o Racional tinham que ser coerentes.
No entanto, o ritual antigo da Igreja, o palavreado dogmático dos Evangelhos, o cheiro asfixiante dos incensos, da madeira velha dos púlpitos, as pedras velhas dos altares e, ainda mais importante, a exigência de humildade (muitas vezes não praticada) perante a figura de Cristo, tudo isso representava uma absoluta contradição com o ambiente do laboratório, da discussão científica e, mais importante, não era compatível com a arrogância do Homem que, à medida que via o seu mundo ser cada vez menos o centro do Universo, se transformava cada vez mais no centro de um Mundo que queria compreender, transformar e, em última instância, controlar.
Depois, veio a subjugação Kantiana do religioso face ao racional: a moral deveria ser entendida como baseada na razão pura, num mundo racional e transcendental onde, abstraídos das imperfeições humanas, os homens, a custo, conseguiriam obter um conjunto de preceitos racionais, logo universalmente válidos, que permitiriam ser uma base para uma paz perpétua. Curiosamente, apesar de muito esforço na sua viagem ao mundo racional, Kant não conseguiu oferecer ao mundo dos homens mais do que o seu Imperativo Categórico – “age como se a tua acção pudesse ser tornada uma regra universal” – que, convenhamos, não é muito diferente da chamada 'Regra de Ouro', algo já presente no mundo pelo menos desde o Reino do Meio do Antigo Egipto, bem como na mitologia Indiana e que, desde aí, numa ou outra forma, desde Thales na Grécia a Séneca em Roma, para nós, Ocidentais, fez o seu caminho até tomar a forma que melhor conhecemos no Evangelho (Lucas 6:31:) “faz aos outros o que queres que te façam a ti”. Para tanta razão faltou oferecer um pouco mais além do que aquilo que já cá andava desde o início dos tempos.
No entanto, a roupa racionalista que Kant oferece para as bases da moralidade, por estar de acordo com os tempos, fez sucesso: Nietzsche, que percebeu melhor do que ninguém as consequências da renegação racionalista ao Cristianismo que estava implícita na tese Kantiana, proclamou a morte de Deus. E garantiu que competia agora aos homens, aqueles que mataram Deus, criar uma nova moralidade assente na vontade humana. Atente-se no “criar”. Apesar disso, através da inspiração Kantiana, durante os últimos duzentos anos, e até meados do Século XX, temo-nos ocupado a “descobrir” uma moralidade. Para Fichte, por exemplo, Deus é a Lei Universal que se explana através da acção humana: criar será, portanto, descobrir.
Pelo caminho, renegando progressivamente mais a religião, tanto vista como uma projecção ilusória do Homem face ao seu próprio desejo de perfeição, como afirmou Feuerbach, ou como um instrumento de controlo de massas, o célebre ópio do povo Marxista, o religioso passa a ser visto como algo que é mau, que nos reduz, que nos limita. E de um mundo onde as autoridades religiosas limitavam os actos dos cientistas passámos para um outro tempo onde são as autoridades científicas que limitam os actos dos religiosos. Naturalmente fica, para já, a pergunta: se foi a religião, em particular a Cristã, que serviu de base para todo o conhecimento do mundo que temos, ou que julgamos ter, como poderemos conservar esse conhecimento sem a base que o suportou? Ou, por outras palavras, se matámos a base da moralidade que nos guiou até aqui como podemos garantir que não cairemos, como tantos antes de nós, no abismo do esquecimento?
É na resposta a esta questão que temos a distinção entre Fé e Razão. Para os primeiros, não há vida completamente humana sem Fé: esta faz parte da experiência de ser humano. Para os segundos, algo que não possa ser explicado pela lógica argumentativa e testado pela experiência empírica não poderá ser considerado verdadeiro.
Para desfazer este equívoco vou primeiro situar o termo “ateísmo” nesta dicotomia. Apesar de a uma primeira vista poder parecer paradoxal, o ateísmo deve ser colocado em primeira instância no campo da Fé. Isto por duas razões óbvias: a primeira é que um ateu proclama saber que Deus não existe; a segunda é que o ateu não pode provar que Deus não existe, apenas que quem acredita em Deus não pode provar que Deus existe. Ora, assim sendo, na sua base ambos exprimem uma crença: um postulado que não pode ser provado. Assim, o ateu, tal como o crente religioso, acredita em alguma coisa: no caso do ateu na não existência de Deus. No entanto, sobra a ausência de prova sobre a sua crença. Ao mesmo tempo, a linguagem do ateu faz-se de argumentos e de provas científicas. Assim, deverá ser igualmente colocado no campo da Razão. Em suma, o ateu assume a ciência como o caminho da sua verdade mas exprime uma convicção do seu resultado final que não pode provar por forma alguma. Não é diferente dos antigos filósofos naturais, apenas que exprimindo a crença contrária de que Deus não existe. Deste modo, o ateísmo torna-se irrelevante para a discussão entre Fé e Razão: partilha com uma, a Fé, o resultado (mesmo que de sinal contrário) e com a outra, a Razão, a metodologia (que perverte ao assumir uma convicção que não demonstra). O ateísmo é, portanto, uma opinião, uma manifestação de fé sobre o mundo, tão válida como outra qualquer desde que não assuma a arrogância de se considerar verdade.
Sobra-nos, portanto, o embate entre a Fé e a Razão sem nos preocuparmos com o fenómeno do ateísmo. E aqui parece-me que há um mal-entendido muito grande a propósito da sua suposta incompatibilidade. Que tenha havido, como fui mostrando ao longo do texto, uma evolução grande na forma como se entende a religião, ou a Fé, e uma controvérsia sobre as bases da legitimidade moral, logo política, da comunidade é algo natural. Que esta evolução fosse derivando num conflito foi inevitável porque o que estava em causa era a autoridade sobre a comunidade: quem a detinha, não a queria perder; quem não a tinha, queria conquistá-la. No entanto, hoje, com o advento da democracia liberal, o debate sobre a Fé e a Religião torna-se uma questão de consciência individual. Ao mesmo tempo, com a modernidade secular, pela primeira vez, Fé e Igreja são duas entidades distintas: é perfeitamente possível ter Fé fora da Igreja. Livres do problema da autoridade política e religiosa, o debate deveria ser mais profícuo. Os argumentos deveriam ser mais claros. As premissas bem explicadas. A serenidade deveria imperar.
Apesar de tudo isto, assim não tem sido. E assim não tem sido porque, parece-me, as regras do debate têm sido ditadas por um dos lados: no caso, a linguagem científica e racional do nosso tempo. A questão que se tem exigido aos crentes religiosos é a de que demonstrem que a sua crença é verdadeira. Mas isso é, naturalmente, impossível: Fé é Fé porque implica saber algo que não pode ser sabido de outra forma. Se pudesse ser sabido de outra forma não seria Fé, seria conhecimento empírico, logo científico. Pretender compreender a Fé, analisar a Fé, saber se a Fé é plausível ou não, como Kierkegaard argumentou, implica matar a Fé: ter Fé implica saber algo como verdadeiro que não poderia ser sabido de outra forma. Nomeadamente, a existência de Deus ou um determinado sentido para a vida. Jacobi, na sua contenda com Fichte sobre o que era o ateísmo, defendeu a noção de salto mortale: para lá do conhecimento da razão, que explica os 'comos', sobra explicar os 'porquês'. E os 'porquês' pertencem ao campo do divino, às causas e não aos resultados, à criação e não à obra; para conhecer o divino, portanto, é preciso abandonar a lógica, o racionalismo, o científico e abraçar a noção de Deus num salto mortal rumo ao abismo do transcendente. Ter Fé não é, por conseguinte, saber algo contrário à ciência: é conhecer para além da ciência, é conhecer o que a ciência não poderá algum dia conhecer.
Daí que o embate entre Fé e Razão seja uma mera ilusão sobre quem não compreende o que é, por um lado a Razão e, por outro, a Fé. Se a segunda trata do transcendente ao conhecimento humano já a primeira é apenas procedimental. A Razão é um mecanismo formal que nos permite organizar o mundo defronte dos nossos olhos. Os seres racionais, por serem racionais, conseguem reconhecer regras, padrões e procedimentos, causas e consequências. No entanto, nada existe no mundo da experiência científica que nos garanta para lá de qualquer certeza que, primeiro, o conhecimento científico que já temos é verdadeiro. Popper explica, e bem, como apenas podemos ter a certeza do que é falso, nunca do que é verdadeiro, porque tudo o que desconhecemos pode provar-nos errados, tal como sempre assim foi no passado a propósito de tudo aquilo que já tivemos como certo e entendido como verdadeiro - o princípio da refutabilidade. Segundo, e consequentemente, a ideia de que a Razão nos permite saber a verdade está igualmente longe de estar provada como verdadeira. A ideia de que existe sequer uma verdade para ser conhecida implica desde logo, a priori, uma hipótese sobre o mundo que não pode ser demonstrada empiricamente. O mundo pode ser uma ilusão idealista, pode ser uma simulação num computador do futuro ou, quiçá, apenas o sonho de uma entidade solitária. Agora, saber que a ciência dos homens, com os seus testes laboratoriais e as suas hipóteses especulativas, permitirá conhecer, de facto, sem dúvida, com certezas, algo de verdadeiro sobre o mundo para lá do mero saber que algumas causas geram outras consequências, ou seja, saber-se que pela Razão se podem conhecer as primeiras causas, não deixa de ser uma extraordinário exercício de... Fé. Talvez por isto mesmo o debate seja tão pouco sereno: o facto de a linguagem do racionalista ser feita de conceitos gerais e abstractos pretensamente universais não lhe confere uma característica de verdade, é certo, mas confere-lhe a ilusão dessa certeza. Ilusão a qual é o combustível dos fanatismos e, como a História bem o demonstra, dos maiores crimes a que a Humanidade já assistiu.
Fernando Pessoa escreveu que "a meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível" (Desassossego, 2009, p. 194 [176]), uma passagem que me parece resumir bem o que quero transmitir.
Concluindo, o debate é infrutífero por duas razões: primeiro, porque tanto a Fé como a Razão são imprescindíveis: a Razão guia-nos por um mundo onde apenas a Fé nos sustenta a embarcação. Segundo, o debate é desnecessário porque ambos os lados do debate se ocupam de coisas diferentes: um dos 'porquês', o outro dos 'comos'. Pessoa, a este propósito, também escreveu que “ter opiniões definidas e certas, instintos e paixões de carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror  de tornar a nossa alma um facto, de a materializar e tornar exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si próprio é o único modo de vida que a um sábio convém e aquece." (Desassossego, 2009, p. 456) Talvez possa ser esta a maior afirmação do valor da Fé: não nos esquecermos que o mundo que não conhecemos, nem poderemos compreender, está ao nosso alcance desde que não aprisionemos a nossa mente na aridez gélida dos conceitos científicos. Talvez os nossos paradoxais tempos de, por um lado, grande optimismo na salvação tecnológica da condição humana e, por outro, de grande desilusão e insatisfação para com, apesar da abastança material, o  facto de termos de lidar com uma profunda ausência de sentido para a vida mais não sejam do que uma grande demonstração prática, científica portanto, da enorme amputação que significa para um ser humano ver-se privado da Fé: ao depositarmos as nossas esperanças na crueza física dos meios do materialismo científico corremos o sério risco de perdermos os fins que a Fé, e apenas ela, nos é capaz de oferecer. Do mesmo modo, ao nos arrogarmos de saber, ou poder saber, a Verdade colocamos em risco a humildade responsável com que devemos abordar o imenso desconhecido que continua a ser o mundo. No final, tal como em tudo o resto, convém recordar Aristóteles que, sabiamente, nos faz sempre lembrar das virtudes do meio termo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

SOBRE AS ELEIÇÕES NO PSD

Algumas notas breves e rápidas sobre a vitória de Rui Rio ontem para Presidente do PSD.

1. A vitória é indiscutível mas será preciso ter consciência do facto de a candidatura derrotada ter tido um score eleitoral muito elevado o que obriga a uma especial atenção por parte do presidente agora eleito para com os derrotados da noite. Se Rui Rio tem essas características pacificadoras é algo que eu há muito duvido, mas se não as tem então espero que as arranje, isto para bem do partido e de uma união fundamental que se exige para derrotar a frente de esquerda maioritária no parlamento. A sua primeira tarefa será essa, a de pacificar e unir q.b. o partido, coisa que não se apresenta nada fácil, e deverá, naturalmente, começar já no Congresso Nacional.

2. O meu maior receio prende-se com o relacionamento com o PS. Qualquer postura colaboracionista com um manipulador sem escrúpulos como é Costa será fatal para o PSD. Espero sinceramente que a conversa da treta do "PSD não é um partido de direita" acabe e que o rumo nacional de reversão do trabalho de Passos Coelho não se alargue ao PSD. Este receio foi a principal razão pela qual apoiei Santana Lopes. Espero também que os órgãos nacionais do partido não se tornem numa espécie de passerelle por onde se pavoneiem todos aqueles que passaram os últimos anos - tão difíceis para o partido - a maldizer o PSD, Passos Coelho e a governação da coligação.

3. Aguardo com curiosidade pelo prometido "banho de ética". Nomeadamente, que medidas serão tomadas no que concerne à militância interna do partido. Nova refiliação? Regime de incompatibilidades entre cargos partidários e lugares no aparelho de estado? Novo regime de quotas? Alterações positivas nestes âmbitos serão muito bem-vindas, desde que não controladas pelos caciques que apoiaram Rio, nem feitas à sua medida ou dos seus interesses.

4. Uma palavra para Pedro Santana Lopes. Santana pode ser acusado de muita coisa mas de falta de entrega ao partido, ou pouca dignidade e educação na forma como se apresentou aos militantes, não poderá ser ele acusado. Foi um bom candidato, representou uma postura coerente e válida dentro do partido, teve um resultado muito digno e merece o respeito, e agradecimento, de todos os militantes.

5. Uma outra palavra, naturalmente, para Rui Rio. Não tenho a menor dúvida que é infinitamente melhor do que Costa. Que é honesto, sério e trabalhador. Que é competente. Assim, feita a escolha dos militantes, terminadas as eleições, será ele o próximo Presidente do PSD e no que depender de mim será também o próximo Primeiro-Ministro de Portugal. Assim o espero e assim o desejo. Votos de muito boa sorte, bem precisa.

6. Finalmente, uma palavra para Pedro Passos Coelho. É, sem dúvida alguma, a pessoa que eu preferiria ver a liderar o PSD. Assim não foi, tenho muita pena mas a vida continua e o partido também. Espero, no entanto, que ande por aí. Portugal e o PSD continuam a precisar dele.


sábado, 13 de janeiro de 2018

FROSTY


SEM DÚVIDAS

Hoje? Pedro Santana Lopes. O PSD onde sempre esteve: na reforma do país contra os interesses instalados.

NO AEROPORTO

No aeroporto, à espera de embarcar, duas mulheres encontram uma terceira, amiga de uma delas. "Por aqui", pergunta a que a conhece, abraçam-se e beijam-se muito e a amiga comum passa às apresentações: esta é a fulana tal e está no serviço tal. "Ah é?", admira-se a outra, e como e quando é que entrou, pergunta logo, e durante minutos relatam todas como, quando e por quem é que entraram para "o serviço". Primeiro, a avença, explica a recém chegada, depois em 2001 a regularização. Ah, bendita regularização! São duas as datas fundamentais na vida dos nossos regedores: a de nascimento e a da entrada ao serviço. Riem-se muito, a vida corre bem para os servidores do Estado. Entretanto, vem aí o embarque, as senhoras chegam-se logo à frente. Diz que têm prioridade.

A EVIDÊNCIA

Das duas, uma: ou bem que o Dr. Rio admite apoiar um governo do Dr. Costa ou bem que quer ser líder do PSD. As duas é que não.

O CERCO (VII)

O Observador, sem dúvida, tem a melhor coluna de opinião do país: é independente, séria e anti-sistema. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito das suas notícias: em pouco tempo, tornaram-se elas também opinião, apenas que mascarada de notícia. Fazem processos de intenção, gozam com os objectos de notícia, adjectivam a seu bel-prazer (por exemplo, nesta notícia, o speaker estava "excessivamente" entusiasmado). É pena. Não me esquecerei da cobertura que fizeram à campanha do PSD em Lisboa, profundamente desonesta, e, parece-me, preparam-se para fazer igual com Santana Lopes. No final, para mim, é um elogio: em Portugal, grave, grave, é ser aplaudido pela classe jornalística.

BLIND AS A BAT


MANICÓMIO

Quando em Portugal, dada a minha aversão à publicidade, propaganda e televisão, costumo, quer no carro quer em casa, ouvir a Antena 2. Gosto, naturalmente, da música - exceptuando as horas dedicadas ao experimental e ao folclore brasileiro -, dos locutores e, também, das entrevistas. Gosto, acima de tudo, do ritmo: tranquilo, profundo, humano. Pelo meio, as notícias permitem, dentro do limite do tolerável porque são curtas, manter-me informado sobre a desgraça do dia. O momento cómico também não falha: dia sim, dia não, lá aparece o/a intelectualóide de meia tigela, produto que Portugal é tão perito em produzir, a arrotar sobre a sua especialidade. Ontem, por exemplo, uma sumidade a quem não apanhei o nome, proclamava que o grande desafio social da Europa é apostar forte na integração dos filhos gerados pelas uniões entre os jihadistas entretanto mortos e as mães europeias que fugiram para o estado islâmico. O grande desafio, atente-se. Aqui do meu retiro Alentejano, entre gargalhadas, só pude agradecer-lhe: não fosse ela e ontem era capaz de me ter escapado a recolecção sobre o manicómio em que vivemos.

CONFIRMAÇÃO

Leio sobre o debate de ontem e dois pormaiores confirmam a minha decisão de votar em Pedro Santana Lopes: primeiro, Rio não descarta o bloco central; segundo, o mesmo Rio, o da suposta mudança de regime, lançou-se em grande crítica à Procuradoria Geral da República que mais lutou contra a oligarquia do bloco central de interesses (e.g. Sócrates, Salgado, etc.). Até para meio entendedor duas palavras deveriam ser mais do que bastantes: Rio é um adversário do processo de ruptura que Passos Coelho iniciou contra os interesses instalados.

UM ASSALTO

Fui interrompido brutalmente do meu retiro Alentejano, não por qualquer indigestão de um bacalhau ou de um cabrito mais condimentado, muito pelo contrário, mas pelas notícias que, apesar da autocensura, insistiram em chegar cá acima às montanhas sobre a aprovação vergonhosa na Assembleia da República do novo regime de financiamento dos partidos políticos. Não posso deixar de manifestar a minha completa estupefacção pelo conluio do PSD com a brigada hipócrita, criminosa mesmo, liderada pelo PS e com os acólitos PCP e BE, naquilo que foi uma tentativa de assalto aos cidadãos portugueses, à socapa, mostrando, quanto a mim, uma inequívoca irregularidade no funcionamento da instituição democrática que é o Parlamento. E, sim, uma maioria que se lança num atentado destes deveria ser dissolvida. Quanto ao PSD, duas coisas se exigem: que os candidatos à presidência do partido se demarquem desta monstruosidade e que os responsáveis pela participação no processo, quer ao nível da comissão política nacional do partido, quer na direcção do grupo parlamentar, se demitam. Não façam isto não que a Dra. Cristas agradece. Finalmente, Passos Coelho não merecia esta nódoa no final da sua presidência. Que vergonha.

EM RETIRO


O ORÁCULO

Se não conseguirdes ouvir o oráculo de Fafe ao serão de Domingo não vos preocupeis porque as proclamações serão devidamente anunciadas em tudo o que é pasquim a partir da madrugada de Segunda-Feira. Se, por outro lado, não for do vosso interesse conhecer o douto postulado semanal comei e calai: não há escape. Assim se comprova a omnipresença mediática do Oráculo Mendes.

WORRIED


DA ÉTICA

Ao que parece, o homem que quer liderar o PSD e dar um banho de ética ao país tem um belo poiso na ordem dos contabilistas como vice-presidente de um eurodeputado do PS e nas listas de um ex-deputado do PS. Coerentemente, para esse candidato o PSD não é um partido de direita. No fundo, é assim uma espécie de bloco central de ética que Rio propõe. E, com certeza, o prometido banho deverá ser de mangueira. De água bem fria.

RARÍSSIMAS, O CASO

Raríssimo, raríssimo mesmo, são pacóvios a armar ao pingarelho, metidos com governantes, em particular do PS, e a estafar o guito dos contribuintes em proveito próprio. Raríssimo. Se assim não fosse, um dia ainda veríamos um qualquer alçado a primeiro ministro com nome em montra de loja em Beverly Hills, um chique, ou, quiçá, outro que, mal chegado ao poleiro, se vai por a fotografar-se em palacete alheio para revistas de coscuvilhice - um chique ainda mais a valer. Mas isso é ficção por isso está polémica toda só pode ser mesmo raríssima.



MALDIÇÃO

Ontem, de passagem por Lisboa, fomos jantar à Praça de São Paulo a uma casinha cheia de nível e qualidade gastronómica. Enquanto nos deliciávamos com as iguarias eu mal as conseguia apreciar ao pensar nas saudades que tinha de quando a zona de São Paulo nada mais tinha além de ruínas e prostitutas. Malditos turistas e empresários que destruíram Lisboa.

DO PROGRESSO

Nos anos 80, quando eu era miúdo, havia muito daqueles foleiros que andavam pelos comboios e pelas praias com uns calhamaços barulhentos a incomodar toda a gente com música de merda. Hoje são os telefones móveis cheios de videoclipes e música da moda - igualmente terrível - com os quais os foleiros de hoje em dia nos brindam nos transportes públicos. Já perguntava o Stanislaw Lec se seria progresso um canibal comer com garfo e faca. A verdade é que é: para o canibal, claro.

EXCELENTE